segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Dona Marlene

A Dona Marlene tem muito frio, conduz devagar, estranha quando a sopa não leva carne, fala durante horas ao telefone e não larga a internet, acha que São Paulo é uma cidade muito perigosa, vê telenovelas e repete muitas vezes a mesma expressão: “Qui gozado, né?”

A Dona Marlene foi a primeira pessoa que conheci em São Paulo. Na noite em que cheguei, abriu-me a porta (sempre trancada à chave) da sua casa, mas não conseguiu descansar. Quando me apanhou fora do quarto, nessa mesma noite, pediu-me os meus documentos, os meus contactos em Portugal e garantiu-me, fazendo-me acreditar que era uma necessidade minha, que no dia seguinte iríamos ao banco, levantar o dinheiro para o primeiro mês de renda.

A Dona Marlene levou-me ao supermercado, apresentou-me os pastéis de carne e todas as frutas das bancadas. Falou-me de feiras de frutas e legumes ao fim-de-semana, falou-me da Pinacoteca, da casa das empanadas de Vila Madalena e explicou-me o funcionamento do micro-ondas.

A Dona Marlene é judia e gosta de cinema. Na minha primeira noite em São Paulo, levou-me à mostra de cinema “israelense” e ficou indignada por o filme não fazer juz aos homens machos e viris de Telavive, mas apresentar um taxista sensível e meigo, pouco habituado aos altos e baixos do amor. A Dona Marlene já esteve em Israel e sabe do que fala.

A Dona Marlene tem quase 70 anos e “vai na academia” duas vezes por semana, não gosta de detergente líquido para a roupa, sai várias vezes com as amigas e diz que os gays são o terceiro sexo. A Dona Marlene tem um sobrinho gay muito bonito.

A Dona Marlene é muito querida e quer que todos se sintam bem na sua casa. A casa da Dona Marlene é para todos, mas eu não sou para a casa da Dona Marlene. Amanhã começo a procurar uma nova morada.

9 comentários:

esgana disse...

Cheira-me que eu tb não era para a casa da Dona Marlene!
*

Clara disse...

Eu sempre disse que a simpatia não é um valor absoluto. Há pessoas tão simpáticas, tão simpáticas, tão simpáticas, que só apetece fugir delas. Dona Marlene parece-me um excelente objecto de relação amor-ódio. Manda-lhe um beijinho meu =D

Vera disse...

Coitada da Dona Ritinha!
Essa Dona Marlene não se cala? ´
Acho que devias escrever um livro enquanto aí estás... Tens jeito pra estórias :)

Alx disse...

já me eatava a inquietar essa tal de Dona Marlene...

Su :) disse...

"Me Parece que a Dona Marlene só tá precisando de companhia" mas foge rápido enquanto podes, os "stalkers" começam assim - meiguinhos, meiguinhos... :p

Gambuzino disse...

Só li um blog da dona marlene e já estava a sufocar... não escrevas um segundo, salta quanto antes :P

Fabi disse...

Antes morar com o "sobrinho gay muito bonito"!!

Rafa disse...

"ca par da bufatadas..."

...põe-te ao fresco...e não dês a nova morada..não vá ela encomendar um "raid defensivo" a um dos seus amigos "machos e viris" ;)

André Pereira disse...

Qual Dona Marlene qual quê! Tu ficaste foi de olho no sobrinho gay.